domingo, 4 de maio de 2008

Mãezinha

No dia da mãe, lembro "Mãezinha":

"A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras que só havia dantes.
Uma viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe poquê.

A que sobeja
chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha."
António Gedeão, Poesias completas (1956-1967)

3 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

O nosso poético e também divertido Gedeão!

Abraço

map disse...

Muitas vezes com grande dose de ironia...

fernanda s.m. disse...

Ainda bem que publicaste este poema de Gedeão, pois ontem, por falta de tempo ( nem queiras saber no que estou metida desde que chegámos...) não o pude ir "resgatar" ao meu "Matebarco" para o (re)publicar, pois acho-o uma delícia...Obrigada pela lembrança.
Beijo grande.